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Entrevistar crianças

Fevereiro 15, 2010

If you want to know how people understand their world and their lives, why not talk with them?

Steinar Kvale & Svend Brinkman

Numa investigação sobre educação, entrevistar os alunos é um dos métodos de recolha de dados que o investigador tem à sua disposição. Kvale e Brinkman (2009: 145) consideram que as entrevistas com as crianças permitem-lhes ter uma voz própria em relação às suas experiências e compreensão do mundo. Mas como fazê-lo?

Cohen, Manion e Morrison (2007: 374) chamam à atenção para o facto de as crianças diferirem dos adultos em termos das suas capacidades cognitivas e linguísticas e que é importante que se perceba o mundo do seu ponto de vista. Segundo Arksey e Knight, citados por Cohen et al. (2007: 374), é importante que se estabeleça uma relação de confiança com as crianças para que elas se sintam à vontade e confiantes e devem-se evitar reacções exageradas (por exemplo, no caso delas se distraírem) ou que a entrevista se torne ameaçadora. Igualmente importante é usar uma linguagem clara e, no caso de crianças com menos de 5 anos, “keep to the ‘here and now’, (…) avoid using ‘why’, ‘when’ and ‘how'”.

Cohen et al. (2007: 375-376) apresentam uma extensa lista de dificuldades numa entrevista com crianças. Destes problemas destacamos os seguintes:

  • Evitar que o investigador seja visto como uma figura da autoridade (por exemplo, um professor, um pai ou um adulto numa posição de poder);
  • Recolher um grande quantidade de informação em pouco tempo;
  • Fazer com que as crianças revelem o que realmente pensam e sentem em vez do que elas acham que o investigador quer ouvir;
  • Evitar que a entrevista sejam vista como um teste;
  • Ultrapassar a natural relutância para contradizer um adulto ou se afirmarem;
  • Ultrapassar a situação em que a criança diz qualquer coisa só para agradar;
  • Evitar perguntas de “sim/não”, preferindo perguntas abertas de forma a evitar a “propenção para a aquiescência”.

Alguns destes problemas não se aplicam a alunos mais velhos.

Hopkins (2008: 110-111), citando Walker e Adelman, apresenta cinco pontos importantes a ter em conta numa entrevista a alunos:

  • “Be a sympathetic, interested and attentive listener, without taking an active conservative role; this is a way of conveying that you value and appreciate the child’s opinion.”
  • “Be natural with respect to subject matter. Do not express your own opinions either on the subjects being discussed by the children or on the children’s ideas about the subjects, and be specially careful not to betray feelings of surprise or disaproval at what the child knows.”
  • “Your sense of ease is also important. If you feel hesitant or hurried, the students will sense this feeling and behave accordingly.”
  • “The students may also be fearful that they will expose an attitude or idea that you don’t think is correct. Reasure along the lines of ‘Your opinions are important to me. All I want is what you think – this isn’t a test and there isn’t any one answer to the questions I want to ask.”
  • “Specifically we suggest that you:
    • phrase questions similarly each time,
    • keep the outline of interview questions before you, and
    • be prepared to reword a question if it is not understood or if the answer is vague and too general. Sometimes it is hard not to give an ‘answer’ to the question in the process of rewording it.”

Miller e Glassner (2009: 127-128) referem um outro problema que, apesar de não ser exclusivo das entrevistas com crianças, deve ser tido em conta:

“The issue of how interviewees respond to us based on who we are – in their lives, as well as the social categories to which we belong, such as age, gender, class, and race – is a practical concern as well as an epistemological or theoretical one. The issue may be exacerbated, for example, when we study groups with whom we do not share membership.”

Para alguns autores como, por exemplo, Mayall, citado por Cohen et al. (2009: 375), as crianças devem ser tratadas como um grupo minoritário uma vez que “they lack power and control over their own lives. If this is the case, then it is important to take steps to ensure hat children are given a voic eand an interview setting in which they feel confortable”.

Um ambiente comfortável pode ser conseguido realizando a entrevista em ambientes naturais para as crianças (Kvale & Brinkman, 2009). Que espaços são esses? McCrum e Bernal (1994) dizem que o mais importante é o conforto. “Try to choose a place that isn’t too threatening – school rooms can often bring associations that prevent children from relaxing. Smaller, friendlier rooms with flexible seating can help” (McCrum e Bernal, 1994: 14). Ghiglione e Matalone referem igualmente a importância do local da entrevista.

Entrevistar em grupo

A entrevista em grupo constitui uma forma de tornar o processo menos intimidatório (Cohen et al., 2007: 374). “Group interviewing with children enables them to challenge each other and participate in a way that may not happen in a one-to-one, adult-child interview and using language that the children themselves use” (Choen et al., 2007: 375). Hopkins (2008: 110) considera as entrevistas em grupo uma boa escolha: “Like other researchers (…) I increasingly find group interviews with three or four students the most productive. Far from inhibiting each other, the individuals ‘spark’ themselves into sensitive and perceptive discussion”.

McCrum e Bernal (1994) concordam igualmente que as entrevistas com crianças em pequenos grupos podem ser bem sucedidas.

“Children’s lives are usually controlled by adults and they are used to having to do what adults tell them, even if they don’t want to. Because of this, individual children can feel overawed by a strange adult, and may take a long time to relax and feel able to speak their own minds. If children are in a group they feel more powerful and more relaxed, particularly if they are friends, and will often spark each other off and do most of your work for you” (McCrum e Bernal, 1994: 10).

Referências

Cohen, L., Manion, L., & Morrison, K. (2007). Research methods in education (6ª Ed ed.). Londres: Routledge.

Ghiglione, R., & Matalon, B. (2001). O Inquérito (4ª Ed ed.). (C. L. Pires, Trans.) Lisboa: Celta.

Hopkins, D. (2008). A teacher’s guide to classroom research. Maidenhead, Berkshire, Inglaterra: Open University Press.

Kvale, S., & Brinkman, S. (2009). Interviews: Learning the craft of qualitative Research Interviewing. ThousandOaks, California: Sage Publishing.

McCrum, S. & Bernal, P. (1994). Interviewing children: A training pack for journalists. Devon, Reino Unido: Children’s Voices (disponível online em http://www.periodismosocial.net/documentos/Infancia%20-Interviewing_children.pdf – acedido em 2 de Janeiro de 2010)

Miller, J., & Glassner, B. (2009). The “inside” and the “outside”: Finding realities in interviews. In D. Silverman (Ed.), Qualitative research: Theory, methods and practice (2ª ed., pp. 125-139). Los Angeles, CA: Sage.

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